23. ângulo morto
Sobre tudo o que está lá mas eu não vejo.
Gosto de ter uma rotina. Não gosto da parte chata de ter um emprego e de passar lá demasiado tempo. Gosto ainda menos do facto de nem sempre ter disponibilidade ou paciência para os meus hobbies, como ler ou escrever esta newsletter. Mas gosto da previsibilidade da minha rotina semanal. Gosto de chegar a casa depois do trabalho, com sorte já ter o jantar adiantado e fazer a última refeição antes das oito da noite. Gosto de jantar cedo para depois me sentar à secretária para escrever, criar conteúdo para o Instagram ou ver uma série. Também gosto de ler nesse mesmo lugar: o livro pousado, uma caneca de chá numa mão e uma caneta na outra, para que possa sublinhar tudo aquilo que acho pertinente na história que estou agora a descobrir.
Nas folgas gosto de acordar cedo. O meu corpo já está tão habituado a esta rotina que, mesmo sem despertador, acordo à hora de sempre. Gosto disso, pois assim sei que tenho tempo para tudo aquilo que planeei para aquele dia. Gosto de programar o que vou fazer, gosto de saber com o que posso contar. Se é para ir jantar fora, por favor avisem-me com alguns dias de antecedência. Não é que tenha uma agenda demasiado preenchida com esse tipo de eventos — não tenho —, mas planos de última hora dão-me alguma ansiedade.
Ainda assim, por vezes, assusta-me o facto de ter esta rotina demasiado entranhada no meu dia a dia. Por vezes assusta-me passar dias sem me sentar no sofá da sala e, quando acontece, assusta-me não me lembrar quando foi a última vez que o fiz. Fiquei triste quando, no outro dia, limpei a fundo a varanda onde tenho a minha cadeira de baloiço e me apercebi que já não me sentava nela há meses. Uma varanda que apanha sol todo o dia e eu não me lembro de me sentar lá por cinco minutos porque o hábito é fazê-lo à secretária. Um sofá e uma cadeira de baloiço que estão lá sempre, mas eu não os vejo. Porque não fazem parte da minha atual rotina. Mas porquê?
Nesse tal dia da limpeza, pus-me a pensar em tudo aquilo que estava no ângulo morto do meu dia a dia. Todas os cantinhos desta casa que eu não ocupo, todos os objetos dentro desta casa que eu sei exatamente onde estão mas que não sei quando foi a última vez que os usei. Os livros na estante que estão por ler e que eu nem sequer me lembro. A roupa que tenho no armário e que ignoro porque estou sempre a vestir a mesma coisa. Aquela caneca que eu adorava, mas que ficou atrás das novas favoritas e que são usadas com mais frequência. Aquele journal que eu jurei que preencheria todos os dias, mas que não lhe ponho os olhos há meses. Aquele creme de olhos que usei uma semana, mas que rapidamente ficou perdido no móvel da casa de banho. Todas as plantas que só se mantêm vivas graças ao meu namorado, porque eu não as rego há… anos?
Pensar nisto é aterrorizador. Gosto tanto da minha rotina, mas saber que ignoro estas pequenas coisas, estes pequenos detalhes, deixa-me triste. Podes estar a pensar que it’s not that deep. Que não é caso para tanto, que estou a exagerar. Mas se deixamos passar estas pequenas coisas, se ignoramos isto sem sequer nos apercebermos… será que não estaremos a deixar para trás outras coisas maiores? Mais importantes? Será que estou naquela rodinha de hamster? E se não estiverem só coisas neste ângulo morto? E se estiverem também pessoas, possíveis novos momentos e vivências que estou a deixar passar por causa da rotina? E se isto for uma bola de neve que não para de aumentar? Será que há forma de ter tudo mais vísivel? Ou este ângulo morto fará para sempre parte da nossas vidas?
Random little things I’m loving lately
Um álbum: Lusa: ato I de Bárbara Bandeira. Música pop portuguesa está viva e recomenda-se.
Uma série: a última temporada de Valeria, da Netflix. Esta é uma das minhas séries de conforto e que bom foi ter novos episódios para ver este mês.
Um livro: Nós Contra os Outros, de Fredrik Backman. Ótima continuação de Beartown, ainda que fique abaixo do primeiro volume.
Até breve,




Identifico-me tanto com aquilo que escreveste 😭 adoro ter uma rotina, porque me deixa mais calma e organizada, mas às vezes tenho a sensação que estou demasiado presa a ela e há tanto que acabo por esquecer, porque não faz parte da tal rotina.
Identifiquei-me tanto com este texto, Jota 🥺 É tão fácil deixar-me cair na rotina e em fazer sempre as mesmas coisas e depois há momentos em que percebo que há tantas outras coisas ao meu alcance e que simplesmente não me lembro delas por força do hábito de fazer sempre o mesmo.